
O Estado Islâmico toma o lugar da Al
Qaeda com métodos ainda mais violentos
ÁNGELES ESPINOSA Erbil (Iraque) 20 AGO 2014 - 21:36 BRT
O autodenominado
Estado Islâmico cumpriu a ameaça de "afogar em sangue" os
Estados Unidos como vingança por suas intervenções no Iraque, que têm castigado
o grupo, da forma como havia anunciado em uma campanha prévia no Twitter.
Apesar dos calafrios que provoca, o horripilante vídeo da decapitação de
um jornalista norte-americano ressalta a astúcia midiática desses
terroristas, e há grandes probabilidades de que ajude a agregar novos recrutas,
inclusive no Ocidente.
Estado
Islâmico (EI) é a nova designação que o grupo escolheu em junho, para
substituir o nome Estado Islâmico no Iraque e do Levante (em referência à
grande Síria), que havia sucedido a nomenclatura inicial Estado Islâmico no
Iraque. Ainda que a organização tenha surgido a partir do braço iraquiano da Al Qaeda,
acabou rompendo os laços com a matriz como consequência de sua expansão para a
Síria, contra as ordens de seus dirigentes. Diferentemente da Al Qaeda, o EI
não atacou alvos ocidentais fora dessa região.
O
nome escolhido faz referência a um governo ideal baseado na lei islâmica e
associado ao início do Islã. Seu líder, Abu Bakr al Baghdadi, com certeza um
apelido, declarou um "califado" nos territórios que controla tanto na
Síria como no Iraque, e exige até que todos os muçulmanos do mundo lhe jurem
lealdade, uma pretensão que foi ridicularizada por numerosos ulemas (sábios em
leis e religião). Não obstante, sua capacidade para se financiar (o Governo
iraquiano suspeita de contrabando de
petróleo) faz com que seja obrigatório levá-lo a sério.
Sob
quaisquer que sejam suas siglas, o que nunca muda é o fato de sua ideologia
estar baseada em uma leitura literal e intransigente do Islã sunita, que considera
hereges o restante dos muçulmanos (e as demais pessoas, infiéis). Suas raízes
na luta contra a ocupação norte-americana no Iraque em meados da década passada
trouxe o apoio da comunidade árabe sunita do país, que se sentiu prejudicada
com a mudança política acarretada pela queda de Saddam Hussein. No entanto, com
o tempo, a postura de desafiar as estruturas tribais criou inimigos (algo que
os EUA aproveitaram para aplacar antes de retirarem suas tropas em 2011).
Sua leitura do Islã sunita
considera hereges os demais muçulmanos
Logo,
sua intervenção em uma Síria rebelada contra Bashar al Assad permitiu o
aumento das bases do grupo, despertando a simpatia de muitos jovens muçulmanos em
todo o mundo que não entendiam a passividade do Ocidente diante da feroz
repressão do ditador. Sua sagaz utilização das redes sociais (com contas
oficiais e uma rede de voluntários individuais que difundem suas mensagens)
serviu para ampliar tanto a repercussão de suas ações como suas campanhas
propagandísticas.
"O
EI está usando as [redes] sociais e outros meios para recrutar seguidores e
amedrontar seus inimigos até a rendição", escreveu o colunista Ali Hashem
no Al Monitor.
Durante
dezenas de entrevistas realizadas na última semana por esta correspondente com
os desabrigados que chegaram ao Curdistão iraquiano, apenas em dois casos as
vítimas tiveram contato com os
fanáticos do EI. Todos os demais relatavam ter saído em fuga após as
notícias de que os seguidores do grupo se aproximavam de seus povoados.
A
mesma brutalidade que aterroriza os yazidis,
cristãos e outras minorias, além da maioria dos muçulmanos, se torna
doentiamente atraente para alguns jovens sauditas, paquistaneses, chechenos e
europeus muçulmanos, incluindo alguns espanhóis. Segundo Hashem, "as
histórias mais lidas nos sites noticiosos em árabe são na atualidade as
relacionadas com as supostas atrocidades cometidas pelo EI".
Nem
sequer é preciso que sejam verdadeiras. A comprovada
crueldade do grupo as torna dignas de crédito, em especial quando se
trata de qualquer tipo de comportamento medieval como as decapitações ou os
casamentos forçados de garotas.
"Das
muitas das acusações que correm estes dias, como o sequestro, violação e a
venda de meninas, não temos provas e não correspondem com as linhas de conduta
anteriores do grupo", alertava recentemente neste jornal Donatella Rovera,
pesquisadora da
Anistia Internacional no Iraque. "Os crimes do EI são
suficientemente horrorosos para que não seja preciso exagerá-los."
O
grupo, tão douto no manejo do Twitter e YouTube, não se preocupa em negar. Isso
lhe permite vencer seus inimigos com um mínimo de confrontos, tal como ocorreu
durante a tomada de Mossul
e seu posterior avanço até Tikrit. E isso é o que fez até agora, concentrar-se
na conquista de território, com o pretexto de fazer a jihad, ou guerra santa
(apropriando-se de um termo religioso, para irritação dos muçulmanos que
rejeitam que eles sejam chamados de jihadistas).
A brutalidade de seus golpes é um atrativo para alguns jovens
Essa
política tem, além disso, outro objetivo: estimular o aumento do número de
recrutas para reforçar as fileiras desses fanáticos. Não é só teoria. De acordo
com o Observatório Sírio dos Direitos Humanos,
pelo menos 6.000 novos combatentes se uniram ao EI na Síria durante o último
mês. Esse alistamento sem precedentes elevaria suas fileiras até 21.000
milicianos. Embora a maioria seja síria, Rami Abdelrahman, o fundador desse
centro de análise, declarou à Reuters que mil dos novos incorporados eram
estrangeiros.
Além
disso, o impacto internacional de suas ações de barbárie provoca um efeito de
imitação sobre outros grupos. Ontem mesmo foram encontrados no Sinai, no Egito,
os corpos decapitados de quatro homens que tinham sido sequestrados sob a mira
de pistola dois dias antes na localidade de Sheij Zuwaid, a poucos quilômetros
de Gaza. Grupos islamitas radicais se misturam nessa região com contrabandistas,
e com frequência atacam os membros das forças de segurança.
http://brasil.elpais.com/brasil/2014/08/20/internacional
Nenhum comentário:
Postar um comentário